quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

Menina


Les Saltimbanques, Pablo Picasso. 1905
Talvez seja pequena
que sou
o céu talvez, de grande,
seja belo - de impreciso -
e de mim, estar embaixo,
quiçá meu maior feito -
esse ser nada
mas breve
e o céu, longo,
azul e eterno
que decifrá-lo
seria falta de juízo.

Junho, 2007

Laís de Oliveira

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

Cotidiano do mundo

Lágrimas escorrem pelo extremo de um olho. Saltam, fugindo de seus devidos canais, à medida que a vida se transforma em música e a música em vida; melancólica. Horas e minutos tornam-se tempo decorrido.
Uma jovem grita histericamente. Orgasmos múltiplos a invadem. O gozo, gosto da vida, devolve a ela a pureza e a sensibilidade das crianças. Sorri satisfeita, nenhum sentimento de culpa sobrepõe àquele súbito de prazer. Ela pensa, que talvez seja essa umas das únicas formas de encontrar o que chamam de Deus. E caminha, seus cabelos espalhados pela brisa mansa, por um mundo que compartilha com todas as suas intimidades refletidas, algumas conhecidas, nem todas exploradas.
Ofegante, uma mulher brada. Seu chamado ecoa pelos tetos de um hospital público e um médico atônito distribui funções a uma equipe desorganizada. Ela geme, resfolega, suspira. Tenta esboçar um sorriso de dor. De dentro de seu ventre um pequeno ser, banhado em um líquido viscoso, mostra o seu pequenino rosto a um mundo que não sabia existir. E chora indefinidamente.
Uma rosa, um sorriso; beijam-se. No banco de uma praça mal iluminada o amor floresce. É um germinar digno de apreciação, o que resulta em encantadoras reminiscências. Há espaço para o perdão, o entendimento e o desequilíbrio, que estrutura os corpos e remonta sorrisos: amor intransitivo.
Olhos famintos, sedentos de justiça e pão, rogam por um pouco de sensibilidade. Os que cruzam apressadamente a avenida não têm tempo para vasculhar os bolsos a procura de uma ou duas moedas para um indigente, que move os lábios num rezar silencioso de quem não se alimentou o dia todo.
Chocam-se. Um bêbado dirigia imprudentemente, um pai de família retornava de uma visita à amante. Ouve-se o estrondo, a vida acaba para um deles. E qual merece mais algum tempo nessa dimensão? Se a justiça se responsabilizasse pela vida, o que fosse bom seria poupado.
Uma garota pálida observa o que transcorre abaixo de sua janela, no décimo primeiro andar. Pensa. Sorri. Sobrevoa sonhos e ilusões; pequenas realidades. Ninguém sabe o que a faz estar ali às seis horas no entardecer de uma quinta-feira improdutiva. Ela continua, visualiza possibilidades, hipóteses, remói constantes arrependimentos. Sente o ar batendo na vidraça, um gosto de fuligem na boca, os cabelos molhados pingando no parapeito da janela. Observa as nuvens dando as mãos, as ondas que se quebram no mar ao longe, os carros que trafegam, a multidão que se aglomera. Ouve o buzinar dos automóveis, o rumor das conversas que se misturam e chegam a um décimo primeiro andar como verdadeira cacofonia. Ouve a vida urbana que se desenvolve abaixo de seus pés e ofuscam o canto dos pássaros. Entre um edifício e outro, aprecia o fim de tarde cor violeta que se mistura a um caramelo acinzentado. Abandona a janela, a existência morna das coisas, a distância entre a intenção e o procedimento, a fresta que olha o mundo. E retorna, sem gosto, ao grosso da vida.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Sem nome


Eu nua
Aqui falando alto, impropérios.
Aqui gritando enigmas
Mistérios meus
O que te intrigue, te interesse em mim.

Eu doida
Aqui gesticulando, teatral.
Aqui vez desengonço
Tal, vez dança
Pra que me olhe, te interesse em mim.

Eu tonta
Aqui girando em mim, tanto que caio.
A quê ocupei-me só de mim?
Ensaio em vão
Que tanto fez, que te interessa em mim?

2007
Laís de Oliveira

Le Cirque (1891) - Gorges Seurat

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

Destino construído

Ele não sabia, mas era o único que a fazia perder o controle. Quando o via, ela prendia a respiração como que leva um susto e o mundo a sua volta se desconstruía por inteiro. Embora ele não soubesse, aquela era a mulher da sua vida. Quando aparecia, arrancava com os olhos tudo do lugar, era um vento forte que desmanchava as estruturas fixas que havia ali. Era a mulher que o fazia se sentir vulnerável... E vivo.
Entre um desencontro e outro, trocaram algumas palavras num dia frio, um dia qualquer. Ela sentiu que tinha dito tudo errado e colocado todas as palavras numa ordem estranha e desconexa. Ele, com o coração aos tropeços, acusou-se de ser um completo idiota e não conseguir juntar frases simples e banais quando, por um instante ímpar, olhou com desvio e medo para aqueles olhos.
Era noite, dia dos namorados, ambos lastimavam não ter um par para aquela ocasião. Não uma pessoa por quem dariam suas vidas, ou com quem certamente se casariam. Lamentavam não ter alguém por quem se preocupar e cuidar sem medo de ser excessivo, alguém em quem pudessem pensar ao ouvir uma música lenta ou um poema romântico, alguém que fosse uma boa companhia e desse uma história de amor, sem maiores adjetivos. Ele a levou em casa. Conversaram banalidades, o tempo, as aulas, as férias, a vida. Ela pensou em oferecer um chá, talvez uma cerveja, ou um vinho que não tinha, mas ficou receosa do que ele pudesse pensar. Não disse nada, nem mesmo agradeceu a companhia. Ele foi embora, tinha aula de francês no outro dia. Ela entrou em casa e foi escrever um poema. Ele, achando que estava indo longe demais com tanto platonismo fora de moda e ela, sofrendo por não identificar nenhum sinal de reciprocidade, escolheram, cada um com seu nervosismo latente e ansiedade, se esquecerem para sempre. Decidiram que deveriam procurar quem deles gostasse.
Encontraram amores desejáveis e invejáveis, mas nenhum que valesse as quatro letras proferidas com veemência e violência, nenhum que fizesse do mundo um inferno bom.

sábado, 19 de janeiro de 2008

Andorinha


"Andorinha lá fora está dizendo:- "Passei o dia à toa, à toa!"
Andorinha, andorinha, minha cantiga é mais triste!Passei a vida à toa, à toa..."

(Andorinha, Manuel Bandeira em Libertinagem)

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E assim, continuo aqui, existindo, com as sobrancelhas por fazer, o cabelo seco e sem corte, as unhas lascadas com o esmalte vermelho descascado, a maquiagem borrada da noite passada. Prefiro dormir a acordar, prefiro chegar a sair.

Olho o relógio e espero que o tempo passe, que o tempo pare, que o tempo volte. Espero apenas para não deixar de esperar. Deixar de esperar seria me tornar ainda mais vazia. Mas a esperança por nada também não preenche; corrói, assim como a saudade do que nunca existiu.

E, pelo menos por enquanto, sonhar acordada é o meu passatempo preferido.

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Por B.G.

Ps: Férias intermináveis. ¬¬

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Lembrete

"PELA TARDE DE OUTONO onde o verão
Deixou rastos ainda, e a escuridão
É de fogo já baço no horizonte -
Por esta tarde onde indecisamente
O vento vago paira como insonte
De sua vinda morna e [ * ],
..."

Fernando Pessoa
5-10-1916


Pedaço de papel rasgado em uma página marcada de poesia de um livro que há muito era fechado. Recado no papel, anotação de contas, dívidas, lembretes: vontade de voltar e fazer tudo que, então, eu não podia esquecer. Vontade de lembrar de tudo que não posso esquecer. Ou do que não quero.
A página marcada era um pedaço de Fernando Pessoa, de um livro de poemas inacabados, coisa que ele deixou por fazer. A incidência me deixou análoga a Pessoa, sua obra por fazer, coisa antiga dobrada em silêncio, pedaço passado em silêncio. Meu cotidiano passado sem ver.
Pessoa era poeta e tinha em tudo seus sentidos.
Também eu tinha, no pedaço de papel, um pouco de mim em pessoa, um tanto de sentimentos que já tivera sentido. Tanto de coisa para não esquecer, qualquer dívida, recado e um rabisco que saiu de mim um dia, de um sentido que não volta. De uma sinceridade só de quem anota sem olhar, de quem rabisca sem sentido. Nostalgia de algo corriqueiro, vontade de sentir pedaço da gente durante o dia que passa, e vai e a gente esquece. Que mesmo se anota, vai, esquece. Saudade de sentir esses pedaços que inteiram algo mais que a gente lembra (e é tão pouco). Vontade de sentir algum se escrever agora. De rabisco sincero sem notar, coisa que fica por fazer. Vontade de lembrar de mim sem precisar agenda.
Lembrete por ser lido num pedaço de papel.
Por mim em pessoa no Pessoa inacabado.


Laís de Oliveira


[ * ] : Espaço em branco deixado pelo autor

sábado, 5 de janeiro de 2008

"Feliiiiz ano noooovo... Adeeeeus ano veeelho.. Que tudo se realiiize..e badada"

É sempre assim; ano novo, promessas no reveillon, férias intermináveis, madrugadas na internet, tardes tediosas, domingão do faustão. A diferença é que antes sempre havia algo a se esperar, esperar por sorrir, chorar. Agora não. O ano começou sem planos, sem reservas, sem champagne. O que antes me matava por dentro, agora é apenas um ruído constante, que incomoda, mas que não rasga, não sangra. Apenas sufoca.
E eu gosto do que me põe no chão.





"I'm a hazard to myself
Don't let me get me
I'm my own worst enemy
It's bad when you annoy yourself"
(Pink)



Por B.G.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

Au Lapin Agile

Esta esquina
Fica bem perto do nosso acaso
Pouco antes do vinho
Do seu copo raso
Da taça vazia
Três quadras e o tonto
O seu embaraço
O nosso tropeço
Desculpas risonhas, em frente
À direita, à esquerda e ao avesso
Os olhos vagueiam
E param, se cruzam...
Se fazem esquina.

Laís de Oliveira



Au Lapin Agile (1904), Picasso